REFLEXÕES E EXPERIÊNCIA NO ADESTRAMENTO DO CANE CORSO

Noticiário da S.A.C.C nº3 de agosto de 1997-por Antonio Bertin

Desejo agradecer a S.A.C.C (Società Amatori Cane Corso), na pessoa de Stefano Gandolfi por me solicitar a relatar a minha experiência adquirida e amadurecida durante os últimos anos em vários campos de adestramento na companhia de um Cane Corso. Não tenho a presunção de me considerar um conhecedor e perito na matéria, outros já souberam ilustrar o caráter do Cane corso de maneira eloqüente, mas posso fazer algumas considerações em virtude do contato quotidiano que por anos me une a um Cane Corso.Para ser sinceiro, quando 7 anos atrás soube através de uma revista especializada, do projeto de recuperação de uma antiga raça italiana, jamais imaginei que acabaria envolvido a tal ponto. Estava simplesmente procurando um cão que tivesse a capacidade de defender a minha propriedade e minha família das incursões noturnas que tinham virado rotina na vizinhança. Não negarei que a minha escolha pelo Cane Corso foi influenciada por um certo espírito de patriotismo. A idéia de que nós italianos finalmente pudéssemos nos honrar de ter um cão de defesa, me estimulava muito. Os 6 anos e pouco que transcorreram após a chegada do meu primeiro Cane Corso , Argo, foram de infindáveis experiências que me fizeram primeiro aprender, depois admirar e em fim amar esta maravilhosa raça. Qualquer um que se aproximar deste espetacular animal e tiver a sorte de achar um exemplar com o caráter do verdadeiro Corso não poderá mais que ficar maravilhado. Desde filhote manifesta um instinto brincalhão que se mantém inalterado com o passar dos anos. Tal característica torna-se importante quando se decide iniciar o adestramento, já que o fato de ser brincalhão é uma grande ajuda na hora de resolver pequenos problemas que inevitavelmente se manifestam. Quando adulto, demonstra ser um animal muito equilibrado. Apesar do caráter brincalhão, é constantemente vigilante e pronto para intervir , sem jamais invadir. O equilíbrio absoluto é provavelmente a característica mais importante desta raça que consegue juntar agressividade , potência, combatividade e docilidade. Todas estas peculiaridades fazem do Cane Corso um cão adestrável e sobretudo muito confiável. Acho que fui um dos primeiros apaixonados a iniciar um trabalho mais profundo no adestramento esportivo do Cane Corso e por isso que posso afirmar que adquiri conhecimento para convencer até os mais céticos. Quando comecei a adestrá-lo, Argo tinha 8 meses e para mim foi a 1ª experiência de trabalho com um cão. Comecei no S.A.S e apesar da minha inexperiência. No início tanto eu quanto os condutores de campo percebemos uma substancial diferença entre o meu Cane Corso e a maior parte dos cães presentes. Todos aqueles que tem paixão pelo trabalho de utilidade, sabem da dificuldade de encontrar um exemplar ávido em caráter para poder ser encaminhado na prática esportiva. A seleção feita na maior parte das raças específicas para esta disciplina, levou a uma progressiva perda das qualidades que diferenciam os cães de trabalho, especialmente no que diz respeito a combatividade e capacidade de mordida. Para Argo, ao contrário dos outros, o trabalho era fonte de diversão tanto nos exercícios de obediência como também no de ataque onde demonstrava total concentração , grande potência e apesar do tamanho de uma notável velocidade de execução. Aquilo que faz do Cane Corso animal único em seu gênero é esta capacidade de ter no mesmo exemplar características opostas como grande agressividade unida também a docilidade, a grande massa e portanto potência com velocidade e rapidez nos movimentos. Se me permitem, um tipo Rottweiler, decididamente mais elegante, mais veloz e com uma mordida de aço. No verdadeiro Corso o instinto predador é muito desenvolvido e uma forte possessividade,que desde filhote permite iniciá-lo com sucesso nos primeiros exercícios com pano e iscas. Geralmente, a passagem pela manga é bastante precoce e não apresenta problemas, já que para o Cane Corso morder é um grande prazer. Ao contrário é possível achar dificuldade no comando "fica", mais isso se evita começando o treino desde filhote. Outro inconveniente que se manifesta nesta raça com freqüência é o difícil convívio com os seus similares. Isto se deve á forte característica dominante deste cão e que se resolve unicamente deixando ele desde pequeno freqüentar ambientes sempre diferentes. Mesmo sendo o Cane Corso muito inteligente e ávido de aprender coisas novas, aconselho não forçar muito o tempo de adestramento, já que como molosso, precisa um tempo de maturação suficientemente longo desde o ponto de vista físico e psíquico. Em torno dos 18 meses pode- se acelerar o adestramento, já que o cão tem a capacidade de suportar algumas pequenas obrigações necessárias para a perfeita assimilação de alguns exercícios. No desenvolvimento dos exercícios de obediência o Cane Corso tende a manter constante atenção e graças a sua agilidade, cumpre todos os movimentos com suficiente velocidade e precisão. Aqui destaco: em muitos anos freqüentando campos de trabalho, muito raramente me aconteceu de ver exemplares de outras raças que, mesmo perfeitamente preparados, realizem os trabalhos com o ímpeto e a veemência de um Cane Corso. Este cão demonstra ter uma natural predisposição para este trabalho, já que seu nato instinto de combate o leva a procurar continuamente o desafio do figurante. O ataque lançado de um Cane Corso é demais espetacular para quem é apaixonado pelas provas de trabalho. É um desencadeamento de uma verdadeira fúria da natureza no que diz respeito a velocidade, potência e agressividade. Daqui deriva a necessidade de se dar um mínimo de adestramento para tê-lo sempre sob controle. Alguns expertos falam que o Cane Corso não é um cão de defesa e sim de guarda. Advertem que adestrar este cão nos exercícios de ataque e defesa levarão a uma perigosa e irreversível mudança no caráter, sob o risco de ter um exemplar incontrolável. Com certeza aqueles que defendem este tipo de tese, jamais viram um Cane Corso trabalhando e menos ainda tiveram oportunidade de se aprofundar no seu caráter. Para demonstrar o que afirmo contarei um caso que me aconteceu, um tempo atrás em companhia de Argo, conhecido pelas suas qualidades de trabalho e pelo seu forte caráter de que está dotado e que transmitiu aos seus descendentes. Um dia estava pegando meu filho, que na época tinha 7 anos na saída da escola junto com Argos. De súbito fomos rodeados por 20 crianças alteradíssimas e excitadíssimas que o abraçavam e puxavam as orelhas. Sem nenhuma intervenção minha ele se deitou aceitando com infinita paciência e estoicismo a chuva de carinho. Se isto é o resultado do adestramento do Cane Corso , o considero não só necessário como obrigatório. Atualmente é normal a discussão sobre a necessidade e oportunidade de fazer o Cane Corso se desenvolver no CAL1(Certificato di Attitudine al Lavoro)como condição necessária para a participação no Campeonato Social. Tratando-se de uma prova simplíssima para tratar de modo superficial o caráter do exemplar, penso que é o mínimo que se pode pretender de um cão como o Corso para poder fazer um pouco de seleção. Espero que seja só um primeiro passo para uma maior valorização da raça no âmbito de trabalho e desejando que em breve exija-se pelo menos a CAL3. Estou convencido que não demorará em se ver o Cane Corso nas competições de trabalho. Os apaixonados não demorarão em descobrir esta raça e apreciar a sua grande potencialidade e qualidade. Como já falei na SACC, o futuro desta raça está estreitamente ligado á possibilidade de um uso prático como aconteceu com o Dobermann, Boxer, Rottweiler e o próprio Pastor Alemão. Se analisarmos as inscrições de filhotes no livro genealógico do ENCI nos últimos anos, descobriremos que nos primeiros 10 lugares , excluindo cães de companhia, estão todas as raças definidas de trabalho sejam de caça ou utilitárias. Sob alguns aspetos podemos dizer que esta tendência se ponha em prática junto ao desenvolvimento da cultura ambientalista que leva a redescobrir atitudes naturais que quase estavam perdidas. Penso que muitos começarão a se sentir mais protegidos por um bom cachorro ao invés de um sofisticado sistema anti-roubo. Na categoria utilitária e sem querer incomodar os sociólogos, não se pode excluir que o aumento de registros seja devido ao senso de segurança que uma raça de defesa dá a quem a possui. O processo de decisão que geralmente leva a escolha de um cão de utilidade, é o seguinte: A)O momento da informação sobre a raça (morfológico e de caráter) B)Visitas as exposições para conhecer melhor o cão e os criadores. É evidente que se as características de caráter não corresponderem ao que cita o padrão ,você optará por uma outra raça. Exemplo: darei um interrogativo que será motivo de discussão: o Pastor Alemão é atualmente a raça mais vendida na Itália e no mundo. Esta notoriedade é devida á convicção por parte do público de que o caráter deste cão é superior aos outros. De fato ele é usado pela polícia , proteção civil, etc. Esta convicção advém da visibilidade que esta raça tem nos concursos e exposições onde é valorizado o quesito beleza e não tanto o quesito caráter. Nós adeptos ao trabalho sabemos bem que se colocamos um agressor forte frente ao animal classificado no 1º lugar da exposição de beleza nem sempre estes exemplares corresponderão ao que se espera do seu caráter. A maioria dos animais se mostrará inseguro ou atacará decidido. Pergunto-me: o Pastor Alemão teria a mesma quantidade de fãs se as pessoas soubessem a real situação da raça quanto ao seu comportamento em comparação com sua beleza? O Cane Corso não tem uma base de fãs nem o prestígio para lhe permitir progredir somente pela sua beleza física, base esta que se expandira em poucos anos se o público descobrir o caráter do nosso bem amado. Não é belo aquilo que é exatamente o que se espera esteja de acordo com o que é falado e que nos adeptos ao trabalho o temos animadamente e entusiasmadamente descrito? Algumas insuficiências de caráter são possíveis de achar num exemplar se for levado ao limite da sua possibilidade. Em casos assim, considero muito positivo o aumento de centros de adestramento cão-dono: quanto maior é o tamanho do animal, mais cuidadoso deve ser o controle do condutor sobre ele. E finalmente farei algumas considerações que podem ser importantes nos próximos anos para o desenvolvimento e divulgação da raça. Antes falei do caráter do verdadeiro Cane Corso, isto porque quem conhece a raça pela 1ª vez corre o risco de estar frente a um exemplar talvez correto no morfológico mais não do ponto de vista do caráter. Nestes anos participando nas exposições caninas achei exemplares tímidos, carentes da ferocidade que distingue esta raça. Eu peço a todos os amantes do Corso, criadores ou não, que entendam que um belo Cane Corso que seja incerto no nível de caráter, não é um verdadeiro Cane Corso. A seleção morfológica deve acontecer junto a de caráter , tendo como objetivo um exemplar perfeito no padrão nos dois aspectos. Se conseguirmos fazer isto exigindo de nós, adeptos ao trabalho, a máxima correção e absoluto profissionalismo, tenho certeza de que o sucesso deste cão será constante no tempo, levando-o a concorrer com os melhores produtos das raças de utilidade.

(Tradução provisória feita por Marina Reisch - Canil Cohors)

 

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