Polêmicas de Raça - O CORSO DA DISCÓRDIA
Artigo de Stefano Gandolfi com intervenção do juiz Piero Renai della Rena e entrevista a Vito Indivieri.
Revista CANI de julho,agosto/96
Um artigo que atacava o Standard (publicado no nº de abril/96 da revista CANI) desencadeou os debates entre adeptos ao trabalho. Temos aqui um dossier que traz a luz definitivamente a verdade sobre a raça.
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O parecer do Juiz Piero Renai della Rena: Rever o Standard? Vamos devagar... O artigo sobre o cane corso publicado na edição de abril /96 da revista italiana Cani assinado por Mario Manfredi ,suscitou entre os corsistas uma reação de contrariedade no mínimo...vivaz. Começarei por esta infeliz expressão: "quase o 70% dos criadores". As estatísticas devem ser feitas segundo precisas sondagens, mas acredito que o Sr. Manfredi teria se expressado melhor se tivesse escrito: "o 70% dos criadores por mim consultados". As observações que este "70% dos criadores" teriam feito do Standard se referem à altura, aos eixos crânio-faciais , à relação longitudinal crânio-focinho , à mordida maxilar-mandibular e ao pêlo. Na prática Manfredi escreve (se entendi bem e no caso contrário lhe peço desculpas) que na realidade a raça, tanto no passado como no presente, é diferente daquele cão idealizado no Standard . Em conclusão (afirma o autor) "a seleção não foi muito correta desde o início " e "não foi feita nenhum tipo de pesquisa nos locais de origem: portanto seria oportuna uma revisão do Standard". Pelo dever de divulgar informações corretas acho oportuno refazer a história deste Standard o qual foi elaborado pelo desaparecido Dr. Antonio Morsiani que começou a interessar-se pela raça no fim dos anos '70. Ele fez muitas pesquisas consultando com Danilo Mainardi, Mario Perriconi, Franco Bonetti, Guido Vandoni , Rafaello Marioti, Sereni, Casolino,Malavasi, Bonatti e Gandolfi. Este último é o presidente della Soc. Cane Corso. O Standard de Morsiani inclui uma série de viagens "exploratórias" na região meridional da Itália (portanto não é verdadeira a afirmação do Sr. Manfredi "não foi feita em profundidade nenhum tipo de pesquisa nos locais de origem". O Dr. Morsiani baseou-se nas opiniões de apaoixonados como Paolo Breber, Flavio Bruno e Vito Indivieri. Mas não foi suficiente. Foram entrevistados anciões , pastores e vaqueiros para concretizar aquilo que no imaginário coletivo e no tempo da memória devia ser o cane corso. Como se vê , tratou-se de um cuidadoso e meticuloso trabalho de pesquisa . De um material certamente heterogêneo o Dr. Morsiani separou aqueles sujeitos que apresentavam um denominador comum de elementos "tipicizzanti" : da elaboração deste trabalho surge o Standard de 1987. Se tivessem achado que a maioria daqueles cães que serviram de modelo eram, vamos supor, divergentes ou com mordedura tesoura, o Standard teria prescrito divergência e mordedura em tesoura. Concluindo: a pesquisa foi muito cuidadosa e o Standard que emergeu respeitou a realidade da maioria. Em quanto ao ponto que se refere à imagem do antigo cane corso, mítico , emergendo das névoas do passado , formando-se graças a inconsciente clarividência dos pastores e vaqueiros, autóctono, rústico, esculpido por uma vida dura que lhe deu o tipo : esta é uma idéia romântica e fascinante do aquele antigo cane corso ao qual o Standard não fez justiça. Não existe uma espécie doméstica se não vem da parte do homem a vontade de selecioná-lo com cuidadosa escolha; ou seja se não existe a cultura desta raça. Agora , tudo aquilo que os bravos pastores , vaqueiros e caçadores lucanos queriam e que a eles servia era um cão de proporções médio-grande , de pêlo curto, corajoso , rústico, forte e equilibrado, frugal e versátil: guardião, pastor, defensor e caçador. Que essas pessoas se ocupassem de fixar precisas características tipológicas é pouco acreditável. Na prática, como não existiu o setter irlandês antes de Laverack, nem o pointer antes de Arkwright, nem o pastor alemão antes de Von Stephanitz, não existiu o cane corso antes de Morsiani. Estatura de 62 a 68cm e de 58 a 64cm, focinho de 1/3 do comprimento da cabeça, ligeiro prognatismo e convergência são irrenunciáveis características do tipo . Rever o Standard? Vamos devagar.... |
| Vito Indiveri, decano dos corsófilos. "O Standard é Sagrado". Era uma vez um cão rústico... Parece uma história infinita a do cane corso. Tão antiga que ninguém sabe quando começou. Com certeza se confunde com a de tantos molossos; depois pouco a pouco, cada um foi especializando-se em trabalhos e funções diversas. A história moderna , em cambio, podemos dar-lhe uma data exata e não é mais velha que 30 anos . Não é este o início da história, que fique claro, é sim o início de uma incongruência: ter compreendido que o corso , cão rústico que se conservou puro por centenas de anos existia , mas estava reduzido a uma faísca. Entre aqueles que perceberam este fato estava Vito Indiveri, um vendedor ambulante de Monopoli (BA) que.... Mas vamos deixar que seja ele quem conte a história . Vamos deixar também a ele (que foi testemunha ocular e tal vez seja um dos principais artífices da recuperação da raça) o trabalho de dizer como foi, como era este cão a respeito dos outros, onde foi encontrado, quem o conservou e como foi recuperado. " Dos corsos tenho uma lembrança vaga - conta Indiveri- a minha era uma família de carreteiros e comerciantes de cavalos e os meus antepassados os usavam nos sítios para fazer a guarda das cavalarias .Mas com a chegada das máquinas estas duas atividades sumiram e eu me dediquei a ser vendedor ambulante , vendia e vendo até hoje lingerie e roupa de cama e mesa mas só no interior e nas zonas mais afastadas. Andei todas as regiões meridionais até Sicília e tenho andado até Úmbria, Abruzzo e Molise. Foi numa granja de Apricena (FG), de Michele Padula, que achei o primeiro corso e o reconheci como o cão dos meus avôs ". A partir desse momento Indiveri começa a registrar tudo aquilo que vê detalhadamente e com meticuloso cuidado. Anota, fotografa, examina, estudia e aos poucos traça um mapa mental da "cepa" dos corsos e das famílias que os possuíam como se fossem "tesouros de família" ciumentamente conservados e passados de pais para filhos . Não eram cedidos a qualquer um que não fosse parente próximo, filho, irmão ou sobrinho. Era assim tanto na Foggia como no interior , em Basilicato como na Calábria. Cruzavam os cães somente em estreita consangüinidade para não dever nada a ninguém. "Só de vez em quando, diz Indiver, trocavam filhotes nas feiras para abrir as linhas de sangue. Trocavam um filhote por outro de outra família ou por queijo ou um saco de cereais". Em 20 anos de procura Vito Indiveri organizou o seu personalíssimo "ENCI" só para corsos. Os pedigrees para ele são os nomes das famílias dos camponeses . Reconstruiu as genealogias das "cepas" num censo meticuloso valendo-se da memória dos camponeses e verificando cada passagem de mão até achar, vivo ou morto, cada sujeito saído de cada casa. O trabalho o ajuda já que costuma andar muito. "Andava tentando achar famílias em lugar onde ninguém teria imaginado que tivesse gente. Eram pessoas genuínas, que viviam ainda com um cavalo em casa". Mas você tem certeza que os corsos que estavam nas mãos desta gente eram puros? " Eu jamais vi no interior um boxer, um mastim, um rottweiller; imagine em lugares assim! Posso dizer que estas pessoas não criavam os cães com fim de lucro ; faziam uma ou duas ninhadas ao ano, só para assegurar-se o recambio , com a própria finalidade da guarda, proteção do gado e também para caçar furões e javalis". E como era aquele corso? Pode descrevê-lo ? "A morfologia geral é a mesma. O cão de hoje em dia se apresenta melhor , não come só pão e água ou salvado e soro, portanto foi melhorado esteticamente porque está mais cuidado. Mas o tipo é o mesmo. Os corsos de então tinham os eixos crânio-faciais ligeiramente convergentes , focinho curto, dentadura ligeiramente prognata e isto era normal mesmo sendo um cão construído e selecionado já que era um cão de presa. A altura era a mesma de hoje, a musculatura possante , enxuto , nenhuma prega na pele nem rugas, o aspecto geral era o de um cão agilíssimo, sempre ativo". Então o Standard estaria correto como está? "Com certeza! O Standard foi redigido em base a cães puglieses ou provenientes da Puglia graças ao trabalho de Perricone , Vandoni, Morsiani , que examinaram uma grande quantidade de sujeitos pais , filhos e netos daqueles que estavam nas mãos dos camponeses; são testemunhas disto também Gandolfi, Casolino, Malavasi e a própria SACC ". Então nada deveria ser mudado? "Absolutamente não! E não vejo razão já que através desta meticulosa pesquisa recuperamos os reprodutores. Os corsos atuais são descendentes diretos dos antigos corsos . Entre os corsos que temos nos canis, não somente nós como também no norte da Itália, podemos ver pais e filhos daqueles de mesmo sangue que os camponeses nos deram garantia de não terem sido mestiçados. Olhem aqui- e Indiveri o aponta- o filho de Plud, o neto de Bruno, de Leone, de Saturno. São os mesmos que tinham as famílias camponesas de Alfonso Comer, de Umberto Leone, Pinuccio Palumbo, dos Príncipe e muitos outros. São os mesmos que hoje tenho eu e muitos outros criadores puglieses . São os mesmos que uma grande quantidade de criadores setentrionais levaram ao norte, graças ao controle da SACC, para garantir a conservação e a definitiva recuperação da raça. Eu li o Standard anos atrás e achei que respeitava fielmente a morfologia e o caráter do nosso cão. Se não fosse assim, pensam que o teria aceito? Sendo como eu sou, da região meridional, ligado as tradições, teria desencadeado todo tipo de batalha não permitindo a ninguém, no limite das minhas possibilidades, que fosse transformado ou desnaturado o cão dos nossos antepassados. Quem quiser mudar o Standard que se apresente com nome e sobrenome , títulos e referências mas sobretudo traga provas e documentos e então lhe daremos ouvidos". |
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A SACC: " Vamos discutir mas sobre bases sólidas..." É surprendente ler numa revista como a CANI um artigo intitulado "O verdadeiro corso", título pelo menos exagerado para um texto que contém críticas ao Standard da raça a aos juizes que fizeram as pesquisas cinométricas com o fim de alcançar a sua redação , ao método utilizado para a sua recuperação e as pesquisas históricas realizadas pelos apaixonados que a isto se dedicaram., como assim também a ENCI que teria aprovado o atual Standard com superficialidade e sem referir se as "raízes da raça". Mas antes de passar a examinar o artigo em questão é bom lembrar ao seu autor, tão seguro e convencido das suas afirmações ao ponto de baseá-las em estatísticas das quais não fornece nenhuma prova documentada e objetiva, como o conceito de raça por nós assimilado seria, desde um século atrás, totalmente desconhecido e em parte o seria até agora. As diferentes tipologias dos cães eram exclusivamente diferenciadas em base as funções para as quais eram utilizadas e a sua seleção era feita com o fim de melhorar o resultado no trabalho. Portanto utilizações idênticas e áreas geográficas vizinhas , em condições sócio económicas semelhantes , conseguiram ter populações caninas essencialmente iguais , tanto pela comunião de raízes como pelo endereço seletivo. Isto não exonerava os cães de exteriorizar no seu caráter morfológico a orientação dada na criação baseada nas tradições locais que variavam de região em região ou pelas convicções pessoais dos proprietários. Fazendo um paralelismo com a história da arte podemos dizer que muitas raças se apresentavam antes de serem selecionadas com a moderna mentalidade cinotécnica , como um estilo arquitetonico que, idêntico no conceito, vira multiforme nas múltiplas realizações regionais. Justamente por isto , quando se deu início a obra de recuperação daquele tipo étnico canino que era e é definido como cane corso , se tentou conjugar a seleção dos exemplares a nossa disposição com o imaginário ou seja com as inumeráveis provas iconográficas e historiográficas descritivas da raça no antigo medioevo até os nossos dias , assim como na essência mais profunda da raça foi recebida pelas populações de Puglia, Molisé, Lucania e Sanio que a criaram no seu período de esplendor. Não se tratou somente de um mero exercício zootécnico , mas da reconstrução de um panorama histórico que permitiu sintetizar num Standard meditado e sincero , fruto de um atento estúdio dos exemplares residuais e de uma longa pesquisa histórica, as características morfo-atitudinais do Cane Corso. Raça traída ? É exatamente ao contrário. O Corso é um cão eclético empregado como guardião , defensor,pastor, caçador e tantas outras, e cuja área de difusão iam do centro- sul da Itália até a Sicília . É evidente que com tal panorama não se poderia dar de cara com uma raça fixada nos seus parâmetros zootécnicos mas sim com um conceito de cão : o cane corso , ou seja "cão robusto". As pesquisas históricas e iconográficas realizadas , a pesar de serem de grande ajuda para amadurecer um conceito de raça aplicável ao cane corso, não permitiram ter uma descrição cinognóstica e detalhada como a moderna cinologia exige . Até os depoimentos dos anciões não entravam em detalhes zootécnicos como as corretas linhas crânio faciais e do focinho e as exatas proporções estre as diversas regiões anatômicas, hoje fundamentais para o cinognosta, mas totalmente irrelevantes para aqueles que procuravam no corso somente um válido auxiliar. Foi muito oportuno basear-se sobretudo nas observações feitas sobre a raça na Puglia por dois notáveis zootécnicos e criadores, o professor Francesco Ballota que o observou e descreveu entre as duas guerras , e o professor Giovanni Bonatti que o estudiou nos anos 50. Este último em particular o descreveu como um cão molosoide de pêlo curto , diferente do Mastim Napolitano , similar ao Bull Mastiff , semelhante ao cão de Presa de Maiorca". O 1º grupo de apaixonados que traspassou a difícil estrada da recuperação do cane corso iniciou a seleção na base de um exíguo número de sujeitos achados em Capinata , a "Relíquia reliquorum" de uma raça já quase extinta. A intenção foi ampliar o mais possível a base genética e como conseqüência o número de exemplares para depois fazer uma 1ª avaliação que permitisse delinear as principais características do tipo. Em 1983 um primeiro grupo de apaixonados se reuniu com os próprios corsos para formalizar a fundação da Societá Amatori Cane Corso (SACC). Naquela ocasião o Dr. Giovanni Ventura , veterinário e juiz da ENCI fez nos exemplares presentes as primeiras medidas cinométricas. Como se batiza uma nova raça A maioria dos sujeitos apresentava um leve prognatismo,
eixos cranio-faciais levemente convergentes, uma altura media de 68cm,
5 menos as fêmeas. Ponto a ponto aqui está a verdade. Vamos contestar com base no Standard. 2 - Se diz que os eixos crânio-faciais na metade
dos sujeitos tende ao paralelismo. Tendo como base de partida uma leve
convergência. 3- Se diz que a metade dos cães examinados neste
ultimo decênio apresentam mordedura torques , enquanto a outra metade
se divide em tessoura e tessoura invertida demonstrando assim que o prognatismo
no cane corso nunca existiu. 4- Se diz que o cane corso deve ter “pelo de vaca”,
como o define Paolo Breber, provesto de sub pêlo . 5- Se diz que o focinho do corso nunca foi assim achatado
e convexo como alguns o querem... O resto das afirmações do artigo em questão
são desmentidas pelo próprio serviço fotográfico
que ilustra o artigo, os quais mesmo assim poucos deles representam cães
acordes com o Standard oficial. |
Tradução: Marina Reisch - Canil COHORS